Todoprosa por Sérgio Rodrigues

Frase

  • Mario Quintana “Estilo: deficiência que faz com que um autor só consiga escrever como pode.†MÃRIO QUINTANA
7/09/08 10:29h

Começos (ainda) inesquecíveis: Jorge Amado

Cada qual cuide de sua memória. Post publicado em 1/4/2007:

*

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo).

E já que andamos falando por aqui de novela, que a preferência do mercado editorial por romances anda transformando numa espécie de “formato que não ousa dizer seu nomeâ€, eis o começo da pequena obra-prima “A morte e a morte de Quincas Berro Dáguaâ€, novelinha lançada em 1958 por Jorge Amado (Record, 41a edição, 1977) e um de seus textos que se sai melhor na luta contra o tempo. A famosa frase atribuída a Quincas – talvez derradeira, quem sabe póstuma, isso se não for só uma balela – é algo parecido com o seguinte, embora cada testemunha tenha sua versão: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não háâ€.

6/09/08 10:22h

A palavra é...
Google

Google é uma daquelas marcas registradas que, de tão integradas à vida cotidiana, acabam fatalmente perdendo a inicial maiúscula e caindo na linguagem comum. Os substantivos gilete, chiclete e xerox são bons exemplos dessa transformação. Em inglês, o verbo to google – procurar uma informação por meio de um mecanismo de busca na rede mundial de computadores – teve ascensão vertiginosa nos primeiros anos do século 21, espelhando a da própria empresa. Em 2006, ganhou a bênção do dicionário Oxford.

Imaginar que os donos de uma marca adotada pela linguagem comum encarem o fenômeno como uma espécie de consagração pode ser prova de ingenuidade. Por meio de seu departamento jurídico e em campanhas junto aos usuários, o Google tem se esforçado para que o verbo to google só seja usado se a ferramenta de busca for mesmo… o Google. Perda de tempo, claro. Desde sua fundação, em 1998, a empresa que agora lança seu próprio navegador tornou-se uma superpotência da economia digital, mas seu poder certamente não se estende à língua.

O novo verbo tem sido lento em sua penetração no português, provavelmente devido ao exotismo de grafia e pronúncia. Embora não seja rara, a forma googlar – ou mesmo guglar – ainda parece longe da consagração. “Dar um Google†é uma solução que também encontra adeptos.

O nome da empresa se inspira abertamente, com uma ligeira mudança de grafia, em googol, termo com o qual o matemático americano Edward Kasner batizou nos anos 1930 o descomunal número 10100, que também pode ser representado pelo algarismo 1 seguido de cem zeros. Consta que a palavra foi cunhada por um sobrinho de 9 anos do matemático. No site do Google, diz-se que o uso do termo “reflete a missão da companhia de organizar o imenso, aparentemente infinito montante de informação disponível na redeâ€.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

5/09/08 9:10h

Marketolândia

O blog de livros do “Guardian” informa (em inglês, acesso gratuito) que a escritora americana Lynn Brittney está oferecendo um prêmio de 5 mil dólares a quem apresentar a melhor idéia de enredo para seu segundo romance – que terá os mesmos personagens do primeiro, uma história de Natal infanto-juvenil. Além do prêmio, o feliz ganhador do concurso também terá direito a ver seu nome na capa do novo livro (o tamanho da letra não é mencionado no regulamento).

Ah, sim: junto com o resumo de sua história, cada concorrente precisa apresentar uma prova de que comprou o primeiro livro de Lynn Brittney. Pegar emprestado não serve. Assim todos ganham, não é mesmo?

Na boa, deviam dar um prêmio para essas coisas.

3/09/08 14:42h

Quando o Portugal Telecom encontra o Jabuti

A lista dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, o mais importante da literatura no país, divulgada ontem à noite, inspira um exercício meio besta, mas quem sabe interessante: cruzá-la com a lista dos dez romances finalistas do Jabuti, também publicada recentemente. Se a convergência dos juízos críticos ainda tem algum valor nesses tempos de pulverização, talvez não seja descabido ver na – magra – área de interseção dos dois conjuntos o território de um certo favoritismo.

Apenas três romances lançados no Brasil em 2007 constam das duas relações: “O filho eternoâ€, de Cristovão Tezza; “O sol se põe em São Pauloâ€, de Bernardo Carvalho; e “Antonioâ€, de Beatriz Bracher. Só o último, que não li, traz alguma dose de surpresa. Os outros dois, sobretudo o magnífico romance de Tezza, são obrigatórios em todas as listas formais ou informais que tenho visto.

Como eu disse, o exercício é meio besta, inclusive por comparar coisas que não são inteiramente comparáveis. O Portugal Telecom se pretende um prêmio da lusofonia (embora apenas os gatos pingados Lobo Antunes, português, e Ondjaki, angolano, estejam lá para confirmar a tese) e joga no mesmo balaio poesia, contos e romances.

O Jabuti se multiplica – ou se divide? – em numerosíssimas categorias. Se formos investigar suas listas em outros gêneros, o número de títulos que concorrem aos dois prêmios cresce um pouco, com a inclusão dos poemas de “Tardeâ€, de Paulo Henriques Britto, e dos contos de “Histórias de literatura e cegueiraâ€, de Julián Fuks.

Eis a lista completa dos finalistas do Portugal Telecom:

“20 poemas para o seu walkmanâ€, de Marília Garcia (Cosac Naif/7 letras);
“Antonioâ€, de Beatriz Bracher (Editora 34);
“Eu hei-de amar uma pedraâ€, de António Lobo Antunes (Objetiva);
“Histórias da literatura e cegueiraâ€, de Julián Fuks (Record);
“Laranja seletaâ€, de Nicolas Behr (Língua Geral);
“O amor não tem bons sentimentosâ€, de Raimundo Carrero (Iluminuras);
“O filho eternoâ€, de Cristovão Tezza (Record);
“O sol se põe em São Pauloâ€, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras);
“Os da minha ruaâ€, de Ondjaki (Língua Geral);
“Tardeâ€, de Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras).

2/09/08 17:19h

Filosofia da (de)composição

Esses dias, enquanto tento pôr um ponto final na narrativa mais longa que já escrevi, tem me vindo à cabeça – ou o pouco que resta dela a essa altura do processo de escrever um romance – a questão da extensão, da duração supostamente ideal dos textos literários. Aquilo que Edgar Allan Poe quantificou com segurança admirável no caso da poesia em torno de cem versos. E fez “O corvo†com 108.

Tudo bem, mas – e a prosa? Cem linhas? No mesmo ensaio, o brilhante “A filosofia da composiçãoâ€, ao qual nunca me canso de voltar, Poe admite que em certos casos (ele cita “Robinson Crusoéâ€) a prosa pode tirar proveito da longa extensão. Mas acrescenta que isso seria vedado à poesia, que, a seu ver, sempre perde ao abrir mão da “totalidade ou unidade do efeito†advinda da leitura que se faz de uma só tacada, sem interrupção.

Eis enfim a medida de Poe: a capacidade de leitura do leitor. Para o escritor americano, essa capacidade pode ser esticada, pois textos excessivamente curtos reverberam pouco, mas jamais rompida, uma vez que textos longos demais precisam ser lidos em várias etapas e isso atenua seu efeito geral.

Aí estaria uma espécie de lei universal da extensão, que acho curiosa, embora suspeite que Poe deixa entrever nela sua incompatibilidade com o romance, gênero que nunca praticou (passou perto em “Narrativa de Arthur Gordon Pynn”). Ao interromper e retomar a leitura seguidas vezes, é possível que o leitor de uma boa narrativa longa, em vez de se afastar dela, execute o movimento contrário – o de mergulhar cada vez mais naquele universo, à medida que abre em sua vida o tempo necessário à lenta e inconsciente assimilação de seus elementos. É só uma hipótese.

Seja como for, deve-se levar em conta que a tal capacidade de leitura do leitor não é a mesma desde que Poe escreveu seu ensaio, em 1846. Longe disso. Mas terá encolhido tanto quanto dizem por aí?

Se os leitores que fazem dos best-sellers o que eles são ainda valorizam um bom tijolo, parece evidente que o tamanho reduzido tem passado por documento entre tipos mais, digamos, literários. Depois que a internet deu de aparecer em absolutamente todas as conversas sobre literatura, tornou-se uma espécie de premissa cristalina a idéia de que, para ser sintonizado com seu tempo, um escritor de hoje deve produzir histórias curtas ou, de preferência, curtíssimas. Daquelas que, segundo a filosofia de Poe, não chegam a ter tempo de reverberar e que quando são extremamente bem executadas, como certos microcontos de Dalton Trevisan, conseguem arrancar do leitor um sorriso – seguido de um discreto “e daí?â€.

Bom, antes que me tomem por maluco, convém explicar que essas considerações nada têm a ver com a busca de uma verdade única sobre a extensão dos textos literários. É claro que tal coisa não existe, cada história dita o seu tamanho. No entanto, um pensamento tem me assediado: e se, justamente porque nosso tempo é tão veloz, tão fragmentado, as narrativas longas se firmarem como sua forma literária de excelência? Não por se conformarem ao Zeitgeist, mas por irem bravamente no sentido oposto – o da resistência à tirania da velocidade?

Depois daquele primeiro parágrafo, antecipo a acusação de advogar em causa própria, que, no entanto, não tem fundamento. Com cerca de duzentas páginas, meu novo romance está bem distante de ser longo. É só o mais longo que já escrevi. Quando falo de narrativas caudalosas, falo de cartapácios de quinhentas páginas, do tipo que a literatura brasileira raramente produz. E se forem eles os santuários do século 21?

1/09/08 10:28h

No papel

Com os “Sobrescritos†momentaneamente fechados para balanço, quem aparecer por aqui atrás de ficção pode recorrer à revista piauí. A edição de setembro, que chegou às bancas no fim de semana, traz um conto meu chamado A fruta por dentro.

31/08/08 10:20h

Começos (ainda) inesquecíveis: Albert Camus

Logo depois de seu primeiro aniversário (hoje está perto de completar dois anos e meio), o blog zerou uma dívida importante. Post publicado em 23/5/2007:

*
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsamesâ€. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro†(Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1942 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

30/08/08 0:15h

A palavra é...
Candidato

A palavra “candidato†vem do latim candidatus, termo derivado do adjetivo candidus, que significa, segundo o Houaiss, “branco, alvo, cândido; vestido de branco; radioso, brilhante; belo, formoso; sereno; feliz, ditosoâ€. Embora todo esse leque de conotações positivas fosse obviamente bem-vindo, o sentido de candidatus nasceu literal: queria dizer apenas vestido de branco.

Aqui estamos na fronteira entre a política e a moda: na Roma Antiga, os aspirantes a qualquer cargo público só se apresentavam diante dos eleitores metidos em togas imaculadamente alvas. O costume, tão arraigado que passou a nomear os próprios políticos em campanha, foi analisado da seguinte forma no início do século 18 por Rafael Bluteau, em seu Vocabulário Português e Latino, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa:

“Candidato – Assim chamavam antigamente em Roma àqueles que pretendiam ser eleitos às dignidades, porque estes tais vestiam de branco, como se quisessem mostrar a candideza do seu ânimo na sua pretensão, dirigida só ao bem público; ou também porque queriam dar a entender que não fundavam nos seus merecimentos, mas na bondade e virtude dos que haviam de eleger, o sucesso da pretensão.â€

Já começado o século 21, Márcio Bueno, autor de A origem curiosa das palavras, acrescentou que “o marketing político criou maneiras bem mais sofisticadas e eficientes de transmitir aos eleitores a mesma idéia que os candidatos romanos tentavam com suas singelas vestes brancasâ€.

Que os equivalentes contemporâneos da roupa branca são mais sofisticados, ninguém discute. Quanto a serem mais eficientes… É preciso levar em conta o drástico encurtamento na credulidade do eleitorado depois que, desde a Roma Antiga, gerações e gerações de políticos se encarregaram de sujar de todas as formas possíveis a toga simbólica do candidato.

Publicado na “Revista da Semanaâ€.

28/08/08 13:18h

Patos em extinção

Sabemos que uma era geológica mental está chegando ao fim quando a revista do “Zio Paperone†(Tio Patinhas) deixa de ser publicada na Itália, um de seus maiores santuários – mote para a contextualização assinada por Marcus Ramone no site Universo HQ:

Ainda é cedo para afirmar que Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey e demais personagens clássicos cairão de vez no limbo, preteridos por criações contemporâneas da Disney – incluindo as egressas dos desenhos animados 3D. Mas o número de cancelamentos de suas revistas vem acontecendo em um ritmo muito maior do que se imagina.

Em Portugal e em quase toda a América Latina, outrora contumazes mercados consumidores dessa turma, os personagens já não são mais publicados.

E os exemplos continuam. Por muito tempo populares no Egito e em outros países do Oriente Médio, os gibis Disney retornaram àquela região em 2005, após dois anos fora de circulação. Mais de dez títulos foram lançados na época, dos quais apenas quatro conseguiram sobreviver aos novos cancelamentos (um deles, para o público feminino, mostra somente as aventuras de Branca de Neve, Aurora, Bela e outras – as Princesas, que vêm fazendo sucesso no mercado de licenciamento ao redor do mundo).

Quando a esses fatos são somados exemplos como o fim da produção brasileira – que já foi uma das mais prolíficas do planeta –, as sucessivas descontinuações desses gibis no Brasil e a publicação minguada nos Estados Unidos (dois únicos títulos regulares sobraram da última leva de cancelamentos) o resultado é desanimador.

Para quem aprendeu a ler – literalmente – com “O Pato Donaldâ€, pedra fundamental do império Abril, nem se fala.

27/08/08 14:13h

L’Éducation Digitale

Quanto mais experiência eu ganho em minha arte, mais ela me atormenta. O problema é que a imaginação fica estacionada enquanto o gosto amadurece. Poucos homens, eu creio, terão sofrido tanto quanto eu pela literatura.

POSTED BY GUSTAVE FLAUBERT, 4 NOVEMBER, 1857

Se George Orwell conseguiu virar blogueiro 58 anos depois de morto, por que não?

26/08/08 11:42h

O Modesto Diagrama Universal da Arte


Para ser mais ambicioso, só se invadisse o terreno do divino. O diagrama acima busca dividir em tribos e agrupá-las em relação a eixos definidos por pares de valores opostos todos os praticantes de todas as formas de arte que jamais existiram. Ridículo, não? No entanto, depois que se começa a brincar com a idéia, não dá vontade de parar.

Em nome da justiça é preciso esclarecer que o tal diagrama, atração de hoje no blog de livros do “Guardian†(em inglês, acesso gratuito), não se apresenta com a pompa sugerida no parágrafo acima. Foi bolado por Scott McCloud, um estudioso de histórias em quadrinhos, aparentemente em veia lúdica, como instrumento para animar palestras. Mas é impossível olhar para ele sem cair na tentação de catalogar o mundo.

Para melhor apreciar o brinquedo, convém saber que a tribo dos “animistas†é definida como a dos artistas intuitivos, mais ou menos naïfs, que não têm – ou fingem não ter – consciência dos filtros que se interpõem entre a matéria bruta que arrancam das entranhas e o produto final. Aparecem no diagrama como cultores do “conteúdo†não tanto por escolha, mas porque mal enxergam outros valores na arte. Majoritária entre artistas adolescentes, acrescento eu, essa tribo perde representatividade à medida que se avança na escadinha etária.

Quanto às outras três categorias – classicistas (que cultuam acima de tudo a beleza), formalistas (o estilo) e iconoclastas (a verdade) –, sua definição é mais ou menos essa mesmo que você está pensando. O esquema não traz novidade nenhuma, seu charme é a simplicidade.

Mais do que as quatro categorias, o que dá consistência ao jogo são os dois eixos de valores opostos que delimitam seus campos: Arte x Vida e Tradição x Revolução. Quase todas as velhas brigas que, eternamente recicladas, animam os quebra-paus artísticos cabem aí. (Talvez a dicotomia comercial x cult, tão atual, seja uma exceção; nesse diagrama os autores assumidamente comerciais só podem ser classificados entre os animistas, o que parece meio insuficiente.)

Dizer que uma taxonomia desse tipo é chapada e empobrecedora seria dizer o óbvio. Todas são. Mas são também um exercício viciante – basta ver o sucesso feito pela brincadeira maluca de Jayme Ovalle em torno de dantas, onésimos, mozarlescos etc. Desde que não se atribua ao diagrama de McCloud o papel de oráculo, acredito que ele possa ser esclarecedor também, dando maior nitidez a certas tensões que normalmente ficam difusas no debate estético.

Antes que se desencadeie a fúria classificatória, uma ressalva: nenhum artista digno desse nome cabe integralmente em apenas um dos grupos, eis a graça da coisa.

24/08/08 9:20h

Começos (ainda) inesquecíveis: Machado de Assis

Para que 2008 fosse o ano do homem também por aqui, faltava republicar este post de 3/9/2006:

*

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

BRÃS CUBAS

Muita coisa começou com essas poucas linhas publicadas em março de 1880 na “Revista Brasileiraâ€, e em livro no ano seguinte. A mais óbvia: começava o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas†(Nova Aguilar, Obra completa, volume I, 1985), de Joaquim Maria Machado de Assis. Começava também, após uma longa doença e uma espécie de “crise dos 40†que o deixara nove meses afastado da imprensa, a segunda e genial fase da obra de Machado – uma ruptura espetacular com o romantismo de suas primeiras narrativas longas. Por fim tinha início, naquele mesmo momento, a tão ansiada maioridade da ficção brasileira, até então esforçada mas capenga, periférica, quase sempre oscilante entre a imitação de modelos importados e a tentativa de se impor como “nacional†pelo método de encher as páginas de índios, caboclos e jandaias. Três começos inesquecíveis em um: só mesmo um certo receio de, digamos, chover no molhado explica que Machado tenha demorado tanto a aparecer nesta seção. Cousas.

23/08/08 10:04h

A palavra é...
Nepotismo

A notícia é excelente: o Supremo Tribunal Federal declarou ilegal o nepotismo, a prática de favorecer parentes com empregos públicos. Resta saber se isso bastará para extirpar uma crença tão trançada em nossa armação social – a crença no direito sagrado ao favorecimento, à mamata – que chega perto de constituir uma religião.

A palavra nepotismo desembarcou no português no início do século 18. Vinha em última análise, provavelmente via francês, do latim nepos, nepotis – “sobrinho ou netoâ€. Mesmo antes de ganhar um nome, a prática já se espalhava feito praga por todos os cantos do poder na então colônia portuguesa. Casava-se à perfeição com a lógica de uma sociedade escravocrata que praticamente desconhecia – e levaria ainda muito tempo para começar a reconhecer – o valor do trabalho livre.

A metáfora religiosa usada ali em cima é mais pertinente do que parece: a palavra nasceu para designar os privilégios de que gozavam os sobrinhos de certos papas na hierarquia da Igreja (netos não, apesar da ambigüidade da palavra latina, pois pelo menos em tese o Sumo Pontífice não devia tê-los).

Nas palavras do filólogo brasileiro Silveira Bueno, fica assim: “Nepotismo – Proteção aos sobrinhos, criação italiana visando aos exageros de proteção que alguns papas deram aos seus sobrinhos, fazendo-os príncipes, cardiais (sic), enriquecendo-os, no séc. XV e XVIâ€. Em tempo: como papas devassos abundam na história da Igreja, vale esclarecer que o sentido de sobrinho, aí, parece ser apenas familiar mesmo.

22/08/08 15:42h

Nada será como antes

Trechos dos romances finalistas do Booker poderão ser lidos – ou ouvidos – de graça no celular. Definitivamente, este é o ano em que o tradicional prêmio britânico decidiu desbundar de vez em forma e conteúdo: como comentado aqui, a “lista longa†dos finalistas inovou ao incluir um thriller assumido, “Criança 44â€. Acessíveis por celular estarão apenas trechos dos livros da “lista curtaâ€, a dos finalistas entre os finalistas, que será anunciada dia 9 de setembro.

É improvável que as frases frondosas de Salman Rushdie, considerado o favorito, façam tanto sucesso numa telinha de celular quanto a prosa escrita especialmente para o novo meio que causa furor no Japão. Em todo caso, para quem ainda duvida, é mais uma prova de que o chão está se mexendo.

21/08/08 14:58h

Ponto-e-vírgula; morto?

Num artigo recente para o “Boston Globe†(em inglês, acesso gratuito), Jan Freeman comenta a queda em desgraça do ponto-e-vírgula, que não vem de hoje. Segundo um estudo restrito à língua inglesa, sua incidência teria despencado de 68,1 para 17,7 (por mil palavras) entre os séculos 18 e 19. O século 20 não é mencionado, mas suponho que um levantamento semelhante encontraria esse sinal de pontuação – “que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do pontoâ€, segundo o Houaiss – chegando perto de encostar no zero à medida que nos aproximássemos do 21.

Kurt Vonnegut, que chamava o ponto-e-vírgula de “travesti hermafroditaâ€, foi apenas um dos escritores que ajudaram a difamá-lo como figurinha pedante, esnobe, cricri, desprovida de sentido e até, na formulação machista de um de seus detratores, mariquinhas.

Acho um exagero. Embora procure usar o ponto-e-vírgula com a maior parcimônia possível – basicamente em enumerações em que um ou mais elementos contenham vírgulas internas, caso em que ele é indispensável à clareza – e não o recomende efusivamente a quem está em busca de um estilo, prefiro pensar nele como mais um recurso no arsenal da língua.

Se até a insuportável mesóclise deve ter – coisa rara, mas tese é tese – o seu lugar, não convém fazer como aquele crítico diante da rima e condenar o ponto-e-vírgula de forma inapelável. Recursos desgastados existem para que escritores de talento os reabilitem.

20/08/08 13:06h

Ainda Kafka: a barata que não era

A recente aparição de Franz Kafka neste blog, embora talvez motivada por interesses menores (de um crítico inglês, não meus, como se pode conferir aqui embaixo), teve pelo menos um efeito divertido: o leitor Eric Novello explorou num comentário certa ambigüidade semântica característica do português brasileiro para declarar:

Nunca mais verei a barata do Kafka da mesma forma!

Claro que a piada seria inviável se Gregor Samsa tivesse virado um besouro. Acontece que virou – e agora estou falando sério. A discussão sobre qual bicho é aquele da novela “A metamorfose†não é brincadeira.

No primeiro parágrafo do livro, em que o Samsa insetificado faz sua brusca entrada em cena, Kafka é vago. O original fala em ungeheueren Ungeziefer, que quem conhece alemão – não é o meu caso – garante ser algo como “monstruoso inseto repulsivoâ€.

Em outros pontos da narrativa, porém, ligeiras pistas morfológicas parecem indicar que Kafka se refere a um inseto da família dos coleópteros, sem maiores detalhes além de suas dimensões avantajadas de monstro. Essa família inclui diversos tipos de besouro, joaninhas e vagalumes. Baratas não.

Para se ter uma idéia da gravidade dessa questão líterário-zoológica, ninguém menos que Vladimir Nabokov, admirador de “A metamorfoseâ€, lhe deu atenção num ensaio-conferência sobre o livro (em inglês, acesso livre). Segundo o autor de “Lolitaâ€, há na novela de Kafka apenas um personagem que chama Samsa de Mistkäfer, isto é, besourão, escaravelho, rola-bosta: a velha empregada da família. Mas Nabokov observa que a mulher provavelmente está tentando ser “simpática†– a realidade seria mais repugnante:

Ele não é, tecnicamente, um escaravelho. É apenas um beetle grande. (Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka enxergavam o bicho muito claramente.)

Vale ressaltar que a palavra beetle, genérico de besouro em inglês, é usada de modo informal também para baratas – embora estas sejam de família diferente. Não sei se o mesmo ocorre em alemão. Será que a lenda da barata começou com um erro de tradução?

De todo modo, é evidente que uma certa indeterminação estava nos planos de Kafka. E talvez fosse inevitável que a barata, por sua liderança incontestável entre os bichos escrotos deste mundo, terminasse por pousar nessa obra-prima para nunca mais sair.

18/08/08 15:20h

Sobrescritos
Deixadinha

Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário.

Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar.

O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras.

João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto.

O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na noite anterior, João leu o seguinte:

O problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. Ela não corre e não se fecha portanto. Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.

Essa última frase acertou a cabeça de João com o efeito de uma bolada à queima-roupa. Ainda atordoado, ele releu:

Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.

Com uma mistura de dor e delícia nunca antes sentida, João foi obrigado a admitir o óbvio: aquilo era melhor do que qualquer coisa que ele já tivesse escrito ou pudesse um dia escrever. Tamanha condensação de beleza e horror na mesma frase, tão seco drible na expectativa do leitor…

…é horrível.

Em poucos minutos, sua vida inteira estava traçada. Pediu Letícia em casamento na mesma noite. Ela aceitou.

Nunca deixaram de freqüentar a rede do Leblon onde se conheceram, nem durante a gravidez nem depois que Joãozinho nasceu e Letícia era obrigada a interromper o jogo a todo momento para dar de mamar.

O casamento parece ir muito bem, e hoje todo mundo na praia aposta que vai durar para sempre. Letícia doou a uma escola pública do bairro seu exemplar de Ãgua viva, e de qualquer maneira, como ela tinha suspeitado desde o início, João nunca foi um grande leitor de Clarice.